Indicações Neurológicas do Doppler Transcraniano

Indicações Neurológicas do Doppler Transcraniano

Por Médico de Doppler Transcraniano   •   05 de dezembro de 2025


Em um mundo onde as doenças silenciosas ameaçam a nossa integridade neurológica, a perspectiva de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) – o inimigo número um da funcionalidade e autonomia – pode gerar apreensão e incerteza. Mas e se pudéssemos ir além do diagnóstico estático e observar o comportamento dinâmico do sangue dentro do cérebro, prevendo crises antes que elas se instalem? Essa é a promessa do Doppler Transcraniano (DTC), um exame que transforma a ultrassonografia em uma ferramenta de vigilância avançada, oferecendo uma segurança sem precedentes. O Doppler transcraniano (DTC) é um exame de imagem relativamente novo, que atua como diagnóstico de várias patologias neurológicas. Ele foi idealizado em meados de 1982, mas só ganhou seu lugar no Brasil em 1992, na USP (Universidade de São Paulo).

Entretanto, este método tem sido cada vez mais útil em diversas áreas médicas, na análise clínica e diagnóstico das mais diversas enfermidades. É um método rápido e não invasivo que coloca o poder da prevenção e do monitoramento em tempo real nas mãos da equipe médica. Continue a leitura deste artigo para descobrir as principais indicações neurológicas do Doppler transcraniano, explorando a profundidade de sua atuação e o impacto que ele tem na longevidade cerebral.

Doppler Transcraniano: Vantagens

O Doppler transcraniano é um exame não-invasivo, capaz de medir o fluxo sanguíneo das principais artérias cerebrais, através da ultrassonografia. Com este método, há a possibilidade de obter informações cruciais sobre a circulação intracraniana, para auxiliar nos casos em que o tratamento clínico ou cirúrgico modifiquem o fluxo sanguíneo cerebral.

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A grande revolução do DTC reside em suas vantagens práticas:

  • Portabilidade: Uma das maiores vantagens desta técnica é sua portabilidade. O equipamento é compacto, o que permite que o exame seja feito em UTIs (unidades de terapia intensiva), com o paciente em uma cama, e até mesmo durante cirurgias. Essa mobilidade é essencial, pois permite o monitoramento contínuo em pacientes graves, onde mover o paciente pode ser perigoso.

  • Segurança e Repetibilidade: Ademais, o exame não é prejudicial à saúde do paciente, pois utiliza ultrassom (ondas sonoras), e não radiação. Isso significa que pode ser repetido quantas vezes forem necessárias, durante longos períodos, o que é fundamental para o monitoramento de doenças dinâmicas, como o vasoespasmo.

Doppler Transcraniano: Indicações

As principais indicações neurológicas do Doppler Transcraniano foram determinadas com base em níveis de evidência científica, conforme um formato específico para análise de tecnologia, experiência pessoal, entre outros.

O método de ultrassom Doppler transcraniano é indicado para diversos usos, sendo classificado como efetivo, estabelecido, promissor e investigativo em suas aplicações clínicas. Dentre as principais indicações neurológicas desta técnica, destacam-se:

1. Avaliação da Circulação e Fluxo do Sangue no Cérebro: O Mapa Dinâmico

O DTC atua como um navegador que traça o mapa do fluxo cerebral, identificando desvios e obstáculos de maneira imediata.

  • Teste de Avaliação da Reatividade Vasomotora Cerebral (RVC): Esta é uma aplicação profunda e fundamental. O exame mede alterações na velocidade do fluxo sanguíneo em resposta a um estímulo (como a inalação de $\text{CO}_2$ ou a interrupção temporária da respiração). O $\text{CO}_2$ é um potente dilatador de vasos. Se os vasos do cérebro não conseguem se dilatar (aumentar o fluxo) em resposta a esse estímulo, isso indica uma Reserva Vasomotora baixa. Este achado é um forte preditor de risco futuro de AVC, permitindo intervenção médica antes que o evento isquêmico ocorra.

  • Detectar alterações hemodinâmicas da circulação cerebral causadas por doença arterial não aterosclerótica: Além da aterosclerose (placas de gordura), o DTC ajuda a identificar vasculopatias raras, como a Dissecção Arterial (ruptura da parede interna da artéria) ou a Doença de Moyamoya, através de padrões de fluxo muito específicos.

  • Teste com solução salina (Teste de Microbolhas): Esta é a forma mais eficaz de identificar se há uma comunicação anormal entre veias e artérias, conhecida como Forame Oval Patente (FOP) no coração. O DTC monitora as artérias cerebrais enquanto o contraste (solução salina agitada) é injetado na veia. Se as microbolhas chegarem ao cérebro (o que não deveria acontecer), isso indica o FOP, uma causa de AVC de origem cardíaca em jovens .

  • Avaliação hemodinâmica de condições clínicas, como estenoses das artérias vertebrais: Avalia o impacto das estenoses nas artérias do pescoço (vértebras) sobre o fluxo que entra no crânio, que irriga a parte posterior do cérebro, responsável pelo equilíbrio e consciência.

  • Avaliação da hemodinâmica cerebral durante a gestação: Em gestantes com pressão alta (pré-eclâmpsia), o DTC pode observar alterações no fluxo cerebral que indicam um risco elevado de complicações graves, como a eclâmpsia, permitindo um manejo obstétrico mais seguro.

2. Análise Profunda das Estenoses Arteriais: O Estreitamento Ameaçador

A detecção de estreitamentos nos vasos é talvez a aplicação mais vital do DTC na prevenção primária de AVC.

  • Triagem de estenoses em pessoas com grandes riscos de doença aterosclerótica intracraniana: O DTC é um exame de primeira linha para rastrear estreitamentos nas artérias dentro do crânio. Uma velocidade de fluxo elevada é o sinal inequívoco de um estreitamento significativo.

  • Avaliar os efeitos hemodinâmicos intracranianos de estenose ou oclusão da artéria carótida interna: A carótida interna é a principal via de entrada de sangue para o cérebro. Se ela estiver bloqueada no pescoço (oclusão), o DTC avalia como o cérebro está se virando para compensar, observando o fluxo nas Artérias Comunicantesuma informação crítica para a decisão cirúrgica.

  • Sanar dúvidas levantadas por angiografia ou ressonância magnética: Em regiões onde a visualização por outros métodos é difícil ou quando há calcificações que falseiam o resultado (artefatos), o DTC, ao focar na velocidade do fluxo, consegue confirmar o grau real de estenose, oferecendo a certeza diagnóstica.

Indicações Neurológicas do Doppler Transcraniano

Indicações Neurológicas do Doppler Transcraniano

3. Estudo de Hemorragias Cerebrais: Prevenindo o Dano Secundário

Em pacientes críticos, o DTC assume um papel de monitoramento sem igual.

  • Análise temporal do vasoespasmo cerebral na hemorragia subaracnóidea associada ao aneurisma cerebral: Este é o uso mais crítico do DTC em UTIs neurológicas. O vasoespasmo é o estreitamento secundário das artérias após o sangramento de um aneurisma. O DTC monitora a velocidade diariamente. Um aumento súbito e acentuado do fluxo (velocidade > 200 cm/s em certas artérias) é o alarme que evita maiores complicações neurológicas, pois permite que os médicos iniciem um tratamento agressivo para dilatar os vasos, evitando um infarto cerebral secundário.

  • Observação da velocidade da circulação sanguínea e redução da pressão de perfusão cerebral em pessoas com hipertensão intracraniana (HIC): Em casos de trauma ou inchaço cerebral, a HIC reduz a pressão que impulsiona o sangue para dentro do cérebro (Pressão de Perfusão Cerebral). O DTC, através do Índice de Pulsatilidade (IP), reflete essa resistência elevada, permitindo aos neurocirurgiões guiar o manejo da pressão.

4. Avaliação de Isquemias Cerebrais: Decifrando o AVC

O DTC é fundamental para entender a causa e o mecanismo de um AVC.

  • Ter uma maior compreensão dos mecanismos fisiopatológicos do AVC isquêmico: O DTC ajuda a diferenciar se o AVC é causado por uma oclusão local, por êmbolos vindos do coração ou por uma estenose nas carótidas, garantindo que seja realizado o tratamento adequado (trombólise ou tratamento cirúrgico).

  • Estudo de coágulos sanguíneos de origem cardíaca (Cardioembolia): O teste de microbolhas, já mencionado, é crucial. Além disso, a Monitorização de Microêmbolos (MIE) pode “escutar” êmbolos silenciosos vindo do coração que estão transitando pelo cérebro, antes que causem um estrago maior.

  • Teste para identificar coágulos sanguíneos nas artérias intracranianas: Em casos de AVC agudo, o DTC pode confirmar se a oclusão na artéria é completa ou se o fluxo está parcialmente restabelecido, orientando a urgência e o tipo de tratamento.

5. Mais Indicações do Doppler Transcraniano: Além da Isquemia

  • Avaliar o risco de isquemia em pacientes com anemia falciforme: O rastreamento pediátrico com DTC é um padrão de cuidado que salva a função cognitiva e motora de crianças com esta doença, indicando a necessidade de transfusões preventivas.

  • Identificar as artérias que nutrem malformações arteriovenosas (MAVs) cerebrais: O DTC mapeia o fluxo e as artérias que alimentam essa “trama” vascular anormal, e é crucial para analisar se o tratamento (embolização ou cirurgia) é eficaz, observando a redução do fluxo.

  • Identificar pacientes submetidos a endarterectomia carotídea com alto risco de isquemia cerebral: Após a cirurgia para limpar a carótida, o DTC monitora o paciente imediatamente para detectar complicações, como o Síndrome da Hiperperfusão ou a formação de novos coágulos.

  • Avaliar alterações na velocidade do fluxo sanguíneo e reatividade vasomotora, em pessoas com enxaqueca: O exame contribui para a pesquisa e compreensão dos mecanismos vasculares envolvidos em alguns tipos de enxaqueca.

  • Confirmar o diagnóstico de morte encefálica em pacientes adultos: O DTC é um método auxiliar estabelecido para a confirmação, demonstrando a ausência de fluxo cerebral.

  • Avaliar complicações cerebrovasculares causadas por doenças infecciosas: Infecções como a Meningite ou Vasculite cerebral podem causar inflamação e estreitamento dos vasos, detectáveis pelo DTC.

As principais indicações neurológicas do Doppler Transcraniano são responsáveis pelo diagnóstico e controle terapêutico das pessoas com doenças cerebrovasculares. Apesar disso, pesquisas de formas de utilização preventivas, terapêuticas e de monitoração de procedimentos cirúrgicos tem sido estabelecidas.