doppler transcraniano

Doppler Transcraniano no Vaso espasmo Cerebral

Por Médico de Doppler Transcraniano   •   15 de dezembro de 2025


A fragilidade da saúde cerebral pode ser exposta de forma dramática pelo rompimento de um aneurisma, um evento que submete o paciente a um risco iminente. No entanto, o perigo muitas vezes não termina no primeiro sangramento; ele pode evoluir para uma complicação secundária e, por vezes, mais devastadora: o vasoespasmo cerebral. O estreitamento de grandes artérias do cérebro é o que chamamos de vasoespasmo cerebral. Normalmente, isso acontece após uma hemorragia subaracnóidea decorrente do rompimento de um aneurisma cerebral. Esta é a ameaça silenciosa que pode levar a um Acidente Vascular Cerebral (AVC) secundário dias após a crise inicial.

A angústia diante dessa complicação era historicamente alta, pois seu diagnóstico precoce dependia de métodos invasivos e demorados. Mas a tecnologia deu um passo gigantesco: o Doppler Transcraniano (DTC) transformou o monitoramento, oferecendo uma vigilância não invasiva e em tempo real do fluxo cerebral. O DTC é a ferramenta que permite que a equipe médica se antecipe ao dano, agindo na hora certa para salvar a função neurológica.

Leia este texto para compreender melhor seus sinais, diagnóstico e as abordagens terapêuticas que, guiadas pelo DTC, transformam o prognóstico de pacientes críticos.

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Doppler Transcraniano e Vasoespasmo Cerebral – Saiba Mais

O vasoespasmo cerebral é a resposta de autoproteção (ou autossabotagem) dos vasos cerebrais à presença de sangue fora de sua circulação normal. É um fenômeno dinâmico e potencialmente fatal que exige monitoramento contínuo.

Diversos episódios fisiológicos podem levar à ocorrência do vasoespasmo cerebral decorrente da hemorragia subaracnóidea. Os produtos que resultam da degeneração da hemoglobina no espaço subaracnoide são os principais elementos causadores da contração na musculatura lisa dos vasos sanguíneos do cérebro.

Imagine o sangue extravasado como um irritante potente. Ao se decompor, a hemoglobina libera substâncias que agem diretamente nas paredes musculares das artérias, fazendo com que elas se contraiam de forma sustentada. Essa contração é o vasoespasmo.

Além disso, a aderência de coágulos sanguíneos ocorre nesta área. Isso resulta na infiltração de células inflamatórias, uma deterioração nervosa e edema (descamação e perda de junções intercelulares), eventos que favorecem o surgimento do vasoespasmo. É um ciclo de agressão e inflamação que culmina no estreitamento perigoso.

Causas do Vasoespasmo Cerebral: Um Leque de Riscos

A hemorragia subaracnóidea decorrente da ruptura do aneurisma cerebral é a principal causa do vasoespasmo cerebral, mas não é a única.

Dentre outras causas de hemorragia subaracnóidea que pode resultar no vasoespasmo cerebral, destacam-se:

  • Vasculite: Inflamação dos vasos sanguíneos.

  • Sangramento de uma Malformação Arteriovenosa (MAV): Um emaranhado de vasos anormais.

  • A Síndrome da Vasoconstrição Reversível (RCVS): Um quadro de estreitamento súbito de vasos que pode mimetizar o vasoespasmo.

  • Traumas: Lesões graves na cabeça que levam ao sangramento.

O ponto crucial: qualquer sangramento significativo no espaço subaracnoideo carrega o risco de vasoespasmo.

Sintomas do Vasoespasmo Cerebral

O vasoespasmo é insidioso e costuma se manifestar entre o 4º e o 14º dia após a hemorragia inicial (com pico de incidência entre o 7º e o 10º dia). Por isso, o monitoramento contínuo é obrigatório.

Normalmente, o sinal mais evidente é a ocorrência de dores de cabeça muito intensas no paciente que sofreu com o rompimento de aneurisma cerebral. Outros sintomas gerais podem preceder ou acompanhar o vasoespasmo:

  • Febre baixa.

  • Sinais de irritação meníngea (rigidez do pescoço).

  • Taquicardia (coração acelerado).

  • Hipertensão arterial.

Entretanto, são os sintomas neurológicos focais que exigem atenção máxima:

  • Sonolência, confusão e torpor são sintomas não muito específicos deste quadro, mas indicam piora do estado geral.

  • Déficit neurológico focal (paralisia em um lado do corpo, dificuldade para falar ou entender) pode indicar o vasoespasmo setorial, especialmente quando há uma maior quantidade de sangue no território vascular correspondente, que pode ser detectado na tomografia computadorizada. O aparecimento de qualquer novo déficit é um sinal de emergência, indicando que a área cerebral irrigada pela artéria em espasmo está sofrendo isquemia.

Diagnóstico do Vasoespasmo Cerebral

O desafio no vasoespasmo é que a detecção precisa precisa ser rápida e contínua, algo que a medicina tradicional não fornecia de maneira ideal.

A arteriografia cerebral é, tecnicamente, um exame utilizado no diagnóstico do vasoespasmo cerebral. Ele injeta contraste diretamente nos vasos para obter imagens anatômicas. No entanto, este é um procedimento caro, invasivo e que pode causar complicações ao indivíduo, e ao próprio vasoespasmo. Este método não é vantajoso para o monitoramento diário, visto que não auxilia no diagnóstico precoce ou acompanhamento da evolução da doença, pois não pode ser repetido rotineiramente.

O DTC como Padrão-Ouro no Monitoramento

Através do exame de Doppler Transcraniano (DTC), o estudo da hemodinâmica cerebral tornou-se não apenas possível, mas rotineiro e seguro. Este é um procedimento não invasivo, que fornece parâmetros cruciais para o diagnóstico e acompanhamento de um vasoespasmo cerebral.

O DTC mede a velocidade do fluxo sanguíneo nas principais artérias. Quando um vaso entra em espasmo (estreita), o volume de sangue que tenta passar por ele deve acelerar dramaticamente.

  • O monitoramento diário com o exame do Doppler Transcraniano no período de pico do vasoespasmo é muito benéfico na avaliação da velocidade do fluxo sanguíneo, especialmente na Artéria Cerebral Média (ACM).

  • Deste modo, é possível identificar aumentos na velocidade que precedem a manifestação clínica dos sintomas, permitindo o diagnóstico precoce e a intervenção imediata.

O critério diagnóstico pelo DTC, que é utilizado rotineiramente em UTIs neurológicas, inclui um aumento na velocidade de fluxo sanguíneo, muitas vezes acima de 120 cm/s na ACM, ou um aumento súbito e significativo em relação ao dia anterior.

É a portabilidade do DTC que o torna insubstituível, pois ele pode ser levado até o leito do paciente crítico, sem necessidade de deslocamento .

Tratamento do Vasoespasmo Cerebral

As abordagens terapêuticas são agressivas e visam primeiramente manter a pressão de perfusão cerebral (a pressão que empurra o sangue para dentro do cérebro) alta o suficiente para vencer a resistência do vaso em espasmo.

Há algumas medidas de suporte que podem ser tomadas dependendo do estado clínico do indivíduo:

  • Sedação e Intubação Orotraqueal: Para garantir a proteção das vias aéreas e o controle rigoroso da pressão de $\text{CO}_2$.

  • Uso de medicamentos vasodilatadores (Nimodipino): Este medicamento é o padrão de ouro para a prevenção e tratamento do vasoespasmo, sendo administrado rotineiramente em pacientes com HSA.

Terapia de Triple H e a Estratégia de Salva-Vidas

Uma forma de tratamento clínico comum é a chamada “Terapia de Triple H” (embora o protocolo tenha sido modernizado, a essência permanece), que visa:

  1. Hipervolemia (Aumento do Volume): Manter o paciente hidratado.

  2. Hemodiluição (Diluição do Sangue): Para melhorar as características do fluxo.

  3. Hipertensão (Aumento da Pressão Arterial): Esta é a medida mais agressiva, com o intuito de vencer a barreira da vasoconstrição. Aumenta-se a pressão arterial para “forçar” o sangue a passar pela artéria estreita, garantindo a oxigenação cerebral.

Como este método (aumento da pressão) é arriscado nos casos em que o aneurisma ainda não foi tratado, o tratamento precoce do aneurisma (cirurgia ou embolização) é essencial, associado ao tratamento do vasoespasmo.

Caso estas medidas falharem, um tratamento mais agressivo via endovascular é indicado:

  • Angioplastia com Balão: Um cateter com um pequeno balão é inserido até a artéria em espasmo e inflado para dilatar o vaso mecanicamente.

  • Infusão de Vasodilatadores: Medicamentos que dilatam o vaso são infundidos diretamente no local do espasmo.

Tais abordagens terapêuticas devem ser realizadas o mais cedo possível, no momento em que os primeiros sintomas surgirem (ou, idealmente, quando o DTC indicar o aumento de velocidade), no intuito de reverter rapidamente o quadro e prevenir a ocorrência de algum dano neurológico irreversível.